
Foi na Salles, e corria o ano de 1980. Criamos uma campanha para Agrotex, uma graxa lubrificante especial para tratores agrícolas fabricada pela Texaco. Fizemos dois anúncios e os habituais materiais de ponto de venda, como lâminas, cartazetes e displays.
Aprovada a campanha, era tocar o “pau no burro”. E assim chegou o dia da produção das fotos. Tudo combinado, nós, quer dizer o fotógrafo, Peter Schneider da “Câmera 3”, eu, a equipe do fotógrafo e os dois modelos escolhidos a dedo numa seleção criteriosa de possíveis (e convincentes) “fazendeiros”. O encontro foi marcado em Santa Teresa, onde ficava o estúdio. E como teríamos que ir a uma fazenda em Posse, nos arredores de Petrópolis, o combinado era sair bem cedo.
Cheguei ao local pouco antes das seis da matina. Estacionei o carro bem na porta (ê tempo bão, quando isto ainda era possível) e subi as escadas para ver se estava tudo ok. Um dos modelos já havia chegado. O outro não. Ficamos a esperar, esperar e nada. Passados uns 15 minutos, o Peter já meio impaciente virou-se para mim e sugeriu que fossemos assim mesmo. Tínhamos que aproveitar uma boa luz pela manhã (antes das 10), as boas condições do tempo, etc., etc.
Eu retruquei que, afinal de contas eram dois anúncios e nós precisávamos fazer as duas fotos no mesmo dia. Pensei em adiar, mas... Não dava. O prazo de fotolitos e rotofilmes (1) para as revistas já estava em cima da bucha.
Daí o Peter teve uma idéia e sugeriu que eu fizesse a outra foto. “Mas, ieeeuuu?!” Perguntei-lhe entre espantado e surpreso. E ele respondeu com um sorriso a dizer que eu até tinha “pinta” de fazendeiro, que era só botar o chapéu, pois até a camisa xadrez e o bigode já ajudavam. Convencido pelas circunstâncias, dez minutos após, premidos pelo tempo, seguimos viagem.
Juro que fiquei temeroso do resultado, mas na hora “h”, tirei os óculos, enfiei o chapelão branco na cabeça, e, pela primeira vez na vida passei para o lado de lá da câmera, convencido de que tinha que fazer o papel de um fazendeirão. Bati a foto ao lado da lata do produto, com um trator desfocado ao fundo, tudo emoldurado pela linda vegetação da locação escolhida. Aliás, todos elogiaram muito, tanto a foto como o modelo... Modelo? Por acaso, mas pelo menos um sucesso... E ainda recebi o merecido cachê!
(1) Para a turma nova que circula pelas agências, naquele tempo era assim, não havia nada digitalizado, como hoje. O material tinha que ser feito de forma artesanal, retoques de pincel nas gráficas, e então seguia, via malote ou outro tipo de postagem... Por vezes, um “boy” pegava um avião e ia entregar o fotolito na Editora Abril ou outras mais longe... Dureza, sô!


